26 de Maio
2.ª edição do Queer Terceira

A ilha Terceira volta a ser palco de um ciclo de filmes e debates de temática queer, nesta que é a 2.ª edição do Queer Terceira, programada pelo Queer Lisboa – Festival Internacional de Cinema Queer. Com a sua atividade centrada em Angra do Heroísmo, nos espaços da Recreio dos Artistas, livraria Lar Doce Livro e Casa do Sal, o programa deste ano não poderia deixar de refletir o atual panorama político, social e cultural, que tem significado um retrocesso nos direitos adquiridos das pessoas queer, propondo-se um conjunto de filmes e debates que abordam muitas destas problemáticas. O cinema é aqui ferramenta de resistência, afirmação, denúncia, de reparação histórica, mas também um lugar que nos faz olhar o passado e presente, e nos instiga a desenhar olhares sobre um futuro mais justo e solidário.

 

Entre 10 e 13 de junho, em pleno mês da celebração do Orgulho LGBTQIA+, teremos a oportunidade de construir diálogos sobre temas como a velhice nas populações LGBTQIA+, a saúde mental e acesso a cuidados de saúde; o estigma e marginalização em resultado das sexualidades e identidades dissidentes; a religião e a família, ou o VIH/sida, procurando assim refletir sobre as vulnerabilidades das populações LGBTQIA+ perante fenómenos como a LGBTQIA+fobia. Através do cinema queer, queremos, com este programa, realçar a importância da construção de um sentido de comunidade transversal a todas as expressões identitárias queer e a todas as idades; e de como é fundamental, hoje, erigir redes de cuidado e laços de pertença.

 

O presente ciclo é financiado pela CIG – Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género, do Ministério da Cultura, Juventude e Desporto, no âmbito do Portugal Mais Igual - Estratégia Nacional para a Igualdade e a Não Discriminação 2018-2030, numa programação em parceria com as comemorações do Azores Pride, em colaboração com a APF Açores – Associação de Planeamento Familiar e Saúde Sexual e Reprodutiva, a (A)MAR - Açores pela Diversidade, a Oficina d’Angra Associação Cultural / Casa do Sal, a Associação StopIdadismo, a Lar Doce Livro e o Cine-Clube da Ilha Terceira / Recreio dos Artistas. Todas as sessões de cinema e debates do programa são de entrada gratuita. Idealizado e coproduzido por João Pedro Costa, designer de comunicação e agente cultural terceirense, o Queer Terceira acontece no contexto de um projeto de itinerância e descentralização que o Festival de Cinema Queer Lisboa tem desenvolvido desde 2021, procurando levar alguns dos títulos mais recentes e relevantes do cinema queer a locais do país onde o acesso a este mesmo cinema, em sala, é ainda muito restrito, promovendo-se assim a experiência do cinema e o espírito de comunidade nessa partilha.  

 

Estreado mundialmente na Berlinale de 2025, na secção Perspectives, e com estreia comercial em território nacional marcada para 18 de junho, a abertura do Queer Terceira é feita com Duas Vezes João Liberada, de Paula Tomás Marques, com sessão no dia 10 de junho, às 21h, na Recreio dos Artistas. Cinema dentro do cinema, a história acompanha João, uma atriz lisboeta, que protagoniza um filme histórico biográfico sobre Liberada, uma jovem dissidente de género perseguida pela Inquisição. Paula Tomás Marques, nesta sua primeira longa-metragem, retoma a sua premissa de reescrever a história através de uma ótica queer e fazer justiça às suas figuras, recuando a tempos passados, nomeadamente reinterpretando e reapropriando figuras dissidentes de género perseguidas ou julgadas na inquisição, como já o havia feito nas suas curtas When We Dead Awaken (2022) e Dildotectónica (2023). Feito quase sem apoios, este é também um filme imbuído de um forte sentido de comunidade, trazendo a si um conjunto de artistas e performers trans, como June João (também coargumentista), André Tecedeiro, Jenny Larrue, Alice Azevedo, Caio Amado, Eloísa d'Ascensão ou Tiago Aires Lêdo, que oferecem uma poderosa dimensão identitária e de autoficção a uma obra que é já um marco no cinema português.

 

Já a sessão de encerramento acolhe Plainclothes, a auspiciosa longa-metragem de estreia do norte-americano Carmen Emmi, estreada no Festival de Sundance de 2025, com sessão marcada para o dia 13 de junho, às 21h, também na Recreio dos Artistas. A ação do filme passa-se nos anos 90, numa pacata Syracuse do norte do Estado de Nova Iorque. Lucas (interpretado por Tom Blyth) é um jovem polícia cuja missão diária implica armar emboscadas a homens homossexuais nos WCs de um centro comercial, onde conhece Andrew (Russell Tovey), por quem se apaixona. Plainclothes trata-se de uma narrativa elegantemente escrita, história de amor com forte matriz social, passada numa década abalada pelo VIH/sida. A esta empática história, Emmi adiciona uma densidade estética, invocando esses tempos da camcorder e do VHS, que densificam os corpos de Blyth e Tovey – magistrais nos seus papéis –, citando ainda essas imagens já históricas dos anos 50 das emboscadas de Mansfield, no Ohio (recuperadas pelo cineasta William E. Jones), resultando num filme imerso em nostalgia, e de uma coesão rara, que ainda assim não deixa de ousar experimentar.

 

Ambos vencedores do Prémio do Público da passada edição do Queer Lisboa, respetivamente nas categorias de Melhor Documentário e de Melhor Longa-Metragem,  My Sweet Child, de Maarten de Schutter, e Jone, a Veces, de Sara Fantova, são as propostas para sexta-feira, dia 12 de junho. Em My Sweet Child, uma produção neerlandesa, o realizador Maarten de Schutter procura reconstruir as memórias perdidas que tem da mãe, a ativista do VIH/sida e antropóloga feminista, Martine de Schutter. Dez anos após ela falecer, ele explora a sua vida e a relação de ambos, de forma a estreitar os laços com o que ficou para trás. O filme é um desmantelar da memória, da maternidade e da perda, guiado pelo amor infinito entre mãe e filho. Produção espanhola, passada no País Basco, o tema da família está também no centro de Jone, a Veces. Jone, de 20 anos, vive com o pai e a irmã mais nova, Marta. O pai de Jone teve de deixar o emprego devido às consequências da doença de Parkinson. Entretanto, as festividades da Semana Grande de Bilbau começam, preparando o palco para a primeira experiência amorosa de Jone.

 

Sendo o envelhecimento uma das mais marcadas características das sociedades europeias contemporâneas, enquanto tema não tem mobilizado a melhor das atenções na nossa sociedade. E no que respeita às pessoas queer, o envelhecimento ainda assume a condição de excecionalidade e dá testemunho de diferentes dimensões de luta: contra a patologização, a repressão religiosa e estatal, a invisibilidade, a solidão. Outlasting – Living Archives of Older Queers, corealizado por Ana Cristina Santos e Nuno Barbosa, deriva do projeto de investigação TRACE – Tracing Queer Citizenship over Time, dedicado à produção de uma análise sobre envelhecimento LGBTQIA+, idadismo e políticas relacionadas com a idade, no Sul da Europa. O documentário acompanha assim um conjunto de cidadãos do Centro e Sul da Europa: a sua superação individual, as conquistas legais e culturais das sociedades em que vivem, o futuro que desejam. O filme, apresentado em estreia absoluta na passada edição do Queer Porto, é agora apresentado em Angra do Heroísmo, no sábado, dia 13 de junho, às 18h, na Recreio dos Artistas.

 

E para assinalar a premência desta temática, a seguir à projeção do documentário tem lugar o debate “Ativismo queer, cuidado e pertença através das gerações”, com as presenças da corealizadora do documentário, Ana Cristina Santos (professora e investigadora, CES - Universidade de Coimbra), Alexandra Menezes (ativista da associação StopIdadismo) e Isabel Cogumbreiro (ativista LGBTQIA+ da APF-Açores/(A)MAR), com moderação de João Ferreira, diretor artístico do Queer Lisboa. O debate começará por focar-se nas problemáticas específicas associadas ao envelhecimento nas pessoas LGBTQIA+, abordando discriminações ligadas ao idadismo, acesso a cuidados de saúde física e mental, e solidão; realçando a importância de redes de cuidado e construção de laços de pertença, nestas populações mais vulneráveis. Seguidamente, procurar-se-á refletir sobre a importância do ativismo e construção de redes comunitárias intergeracionais; assim como da história e da memória como ferramentas para pensar o presente e o futuro das comunidades queer.  

 

Escritor terceirense com forte implementação na ilha, Álamo Oliveira navegou a ficção narrativa, o gesto autobiográfico, o ensaio, a poesia, a escrita de teatro e as artes performativas, afirmando-se como um nome maior das letras portuguesas. À beira de se assinalar um ano sobre o seu falecimento, em julho de 2025, o Queer Terceira promove o debate “Álamo Oliveira e Literatura Queer Portuguesa” onde se procurará refletir sobre estas múltiplas dimensões da obra do autor e do sentido humanista que a atravessa, perceber o seu legado cultural na Ilha Terceira e a sua vivência na diáspora; assim como contextualizar a sua obra num panorama literário queer português, em particular através do seu olhar (outro) à Guerra Colonial, a par da obra de autores como Guilherme de Melo ou Eduardo Pitta, oferecendo-se depois um panorama mais alargado de uma literatura queer em Portugal nas últimas décadas. A ter lugar na quinta-feira, dia 11 de junho, às 18h15, na Lar Doce Livro, o debate conta com as participações de Paulo Brás, coproprietário, com Ricardo Braun, da livraria aberta, no Porto, dedicada à literatura queer, e de Sara Leal, realizadora e autora do documentário “Álamo Oliveira – Com Perfume e com Veneno”, com moderação de João Ferreira.

 

E para marcar a segunda edição do Queer Terceira, a Casa do Sal acolhe uma festa para celebrar a comunidade queer terceirense e o encontro entre público e pessoas convidadas do ciclo de cinema. Entre copos, conversas e partilhas, a pista vai ser animada por Simon R e Luís Bravo, com um videomapping do VJ LJ MAD. A Festa Queer Terceira tem lugar na sexta-feira, dia 12 de junho, entre as 22h00 e as 02h00 com o custo de entrada geral de 3€, e de 1,5€ para pessoas sócias da Oficina d’Angra.

 

Calendário de sessões e atividades do Queer Terceira:

 

quarta-feira, 10 de junho:

 

21h00 - RECREIO DOS ARTISTAS

"Duas Vezes João Liberada" de Paula Tomás Marques (Ficção, Portugal, 2025, 70’, v.o. portuguesa, leg. inglês)

 

quinta-feira, 11 de junho:

 

18h15 - LAR DOCE LIVRO

debate “Álamo Oliveira e Literatura Queer Portuguesa”

Com Paulo Brás (livraria aberta, Porto) e Sara Leal (realizadora), com moderação de João Ferreira

 

sexta-feira, 12 de junho:

 

18h00 - RECREIO DOS ARTISTAS

"My Sweet Child", de Maarten de Schutter (Documentário, Países Baixos, 2025, 58’, v.o. neerlandesa, leg. inglês)

 

21h00 - RECREIO DOS ARTISTAS

"Jone, a Veces", de Sara Fantova (Ficção, Espanha, 2025, 80’, v.o. espanhola e basca, leg. inglês)

 

22h00 às 02h00 – CASA DO SAL

Festa Queer Terceira

 

sábado, 13 de junho:

 

18h00 - RECREIO DOS ARTISTAS

"Outlasting - Living Archives of Older Queers", de Ana Cristina Santos e Nuno Barbosa (Documentário, Portugal, 2025, 56’, v.o. inglesa, portuguesa, italiana, grega e eslovena, leg. português)

 

19h00 - RECREIO DOS ARTISTAS

debate “Ativismo queer, cuidado e pertença através das gerações”, com Ana Cristina Santos (professora e investigadora, CES - Universidade de Coimbra), Alexandra Menezes (ativista da associação StopIdadismo) e Isabel Cogumbreiro (ativista LGBTQIA+ da APF-Açores/(A)MAR), com moderação de João Ferreira

 

21h00 - RECREIO DOS ARTISTAS

"Plainclothes", de Carmen Emmi (Ficção, EUA, 2025, 95’, v.o. inglesa, leg. em português)
 

 

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